Bianca Toledo

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Apaixonados pela ilusão abril 25, 2010

Filed under: Reflexão — biancatoledo @ 1:21 am

Gostaria de saber porque a mentira sempre seduz e convence o coração a fugir da verdade, adiando a frustração e tornando tão doce e irresistível a ilusão.

Simplesmente nos convencemos que um belo dia a mentira que desejamos se tornará real e a verdade simplesmente deixará de existir. A verdade dói?

E alguém já morreu de dor?

“Amanhã é um novo dia e tudo vai ser diferente”

“Ele não fez por mal”

“Sei que depois que casarmos ele(a) vai mudar”

“Segunda-feira começo a dieta”

O auto-engano assola todos os níveis de QI e todas as classes sociais. Desejamos criar uma realidade paralela que nos aproxime do ideal, torcendo pra que seja real, e normalmente nos frustramos, na melhor das hipóteses com alguns arranhões e contusões na alma.

O impulso de ter aquilo que se deseja ultrapassa a sensatez de esperar para que se revele.

Não há segredos na alma que a conduta não revele.

Mas para que a revelação aconteça é preciso tempo, paciência e uma boa dose de frieza para conhecer o real e aceitá-lo antes que a paixão te cegue. Contra fatos não há argumentos.

Homens e mulheres, todos nós estamos em busca de algo.

E nessa busca precisamos estar plenos.

A plenitude traz a paciência e a serenidade necessárias para identificar o que nos faz verdadeiramente bem nos momentos mais difíceis de resistir à ilusão.

Sabe quando vemos aquele sapato dos sonhos com um preço incrível e totalmente adequado à roupa que usaremos naquela noite tão especial? … Com um detalhe; ele é 2 números menor que o seu pé.

“ Não tem problema, vai lacear, e eu vou agüentar.”

Porque nos iludimos?O benefício passageiro vale a dor e a lesão muitas vezes definitiva?

Pergunte o número antes de se apaixonar.

Ande um pouco com ele, veja se está confortável, pense, veja-o em todas as ocasiões, se possível espere um tempo e se ainda o quiser e preencher todos os requisitos, torne-o seu.

Não estou aqui apoiando o perfeccionismo ou a crítica abusiva. Muito pelo contrário. Estas coisas nos levam a maquiar o real para suprir nossas elevadas expectativas.

Simplesmente acredito que devemos parar e pensar sobre a maneira como fazemos nossas escolhas e desesperadamente procuramos preencher nosso vazio.

Muitos passam uma vida aprisionada por escolhas mal feitas com conseqüências definitivas.

A paixão faz isso. Desejamos desenfreadamente por algo que deveria estar dentro de nós.

Todos temos um vazio do tamanho de Deus.

E tudo que tentarmos encaixar neste vazio vai nos frustrar e o tempo que levamos nos enganando é um tempo totalmente perdido. Enquanto a vida plena tem tanto a nos oferecer.

Uma vida sem amarras, sem dependências ou co-dependências, sem vícios, sem este apetite desenfreado por afeto e atenção.

A liberdade não está em ter, e sim em ser. A aventura da consciência em busca do seu próprio complemento, através da reconciliação consigo mesmo define a verdadeira liberdade.

Propor-se a descobrir a verdadeira condição de si e do próximo através de suas ações e não de suas intenções é examinar suas manifestações de forma mais fria possível, fugindo a todo determinismo interior ou exterior, tornando-se assim integralmente responsável por todas as suas ações e respectivas conseqüências.

O ser humano é intrínseca e ontologicamente livre e ironicamente luta contra isso.

Existe um mundo confeccionado para te iludir, ludibriar, alimentar suas ilusões e fortalecer a idéia de que precisamos viver em busca da felicidade, de preferência que ela caia do céu de forma milagrosa e instantânea.

… Sem muito esforço, sem sacrifício.

Se pudermos compra-la, melhor ainda.

Mas a verdade disso tudo é que o sistema e a sociedade que alimenta suas doenças não prepara suas curas. Simplesmente aguarda seu triste fim e te exclui.

Então porque nos preocupamos tanto com o que as pessoas pensam e esperam de nós?

A tradição e a religião nos manipulam com a culpa e nos mantêm alheios à realidade, a verdade e a liberdade que nos pertencem.

Acordar de um mundo de sonhos, de uma anestesia deliciosa que nos mantém inerte é decidir agir em direção à plenitude de ser.

E começar aprendendo a dizer não aos prazeres fáceis, à paixão insensata, a fé sem base, à ilusão dos argumentos que defendem a mentira de quem na verdade não quer abrir mão do que deseja.

E pensar que tudo isso começou com uma paixão…